"Aquilo de que é, e sempre foi, inevitável falar, seja qual for o momento da vida do ser humano – a sociedade – é agora, como muitas vezes no passado, um assunto delicado e em considerada crise de identidade.
Todas as acções e os espaços que ocupam no tempo e no mundo, moldam uma sociedade, fazendo com que, num globo em que já nem o mar separa povos, existam vários desses pontos de concentração de ideais hierarquizados, que cada vez são mais divergentes: antes tentavam-se unir ultrapassando os lapsos geográficos que os separavam, e, agora, tentam-se unir ultrapassando os lapsos de concordância ideológica.
Nunca fora de contexto ou desactualizado como tema, a sociedade sofre de pontos demasiado fracos que a fazem recuar, muitas vezes, sem fazer por isso. Ou talvez seja esse o mal.
Pensa-se em sociedade enquanto uma bolha isolada: os seus limites são bem definidos, e nada do que possa acontecer para lá da sua barreira afecta o seu conteúdo. E é assim, com um pensamento isolado num mundo, que não o é, que se chega à chamada crise. Existem biliões de corpos a passearem-se por esse planeta, a maior parte deles sem terem uma luz interior na sua mente que os incite a pensar além de si, além do seu refúgio na humanidade. Num mundo em que uma guerra pode acontecer por uma chamada telefónica, é essencial ter-se a noção de que as fronteiras não existem na realidade e que se trata tudo do mesmo: pessoas com necessidades e idéias próprias - ou pelo menos assim se esperava – e todas elas têm o direito àquilo que lhes foi dado incondicionalmente: a vida.
Como um sábio filósofo disse, “Deve ser feito o maior bem para o maior número” – Stuart Mill. Sábio, não só pelo conjunto da frase, mas também pela última das suas palavras: número. Se as sociedades hoje se encontram em crise, para lá de questões de culto, educação e espaço geográfico, armamento, política, entre outras, encontra-se uma razão que acompanha cada passo que se dá no dia a dia: a sociedade já não é feita de pessoas, mas de números. Já pouco importa a essência do indíviduo, mas sim o que dele poderá provir, sendo esse conjunto de gente a que se chama sociedade, um jogo de interesses, ao contrário do refúgio que era suposto ser para a integridade humana.
Recuando no tempo, as sociedades viviam com pouco conhecimento umas das outras. E os problemas provenientes de cada uma eram pouco ou nada respeitantes a outra. Mas houve necessidade de mais, e aí entrou em cena o rol de pecados mortais que é devorado pelos atentos cristãos que por esse mundo devem andar esquecidos ou escondidos: a luxúria, a inveja, a ira e a vaidade levaram aos gloriosos impérios mortos que figuram em todos os livros de História como grandes manchas coloridas a tingir o Mapa Mundi. No entanto, para gerir uma sociedade, tem de haver alguém com poderes superiores aos do comum ser social. Mas nem todos os seres sociais podem ter esse escalão, e, então, formou-se uma hierarquia: do rei ao escravo. A partir do momento que tomam o mais alto lugar, passam a exercer a gestão de interesses, que leva a um profundo trabalho do soberano, se não tivesse este mais que fazer do que ostentar a sua sociedade e deixar a sua gestão para os braços dos que trabalham para ela. E a avareza e a preguiça tomaram lugar.
É verdade que os Reis já só são figuras de estado, agora, como verdadeiro e único objectivo. E é verdade, também, que a escravidão, para o Homem menos atento, já acabou. Mas os pecados mortais continuam a existir, tornando-se mortais para toda a sociedade que os alimentar.
Não necessitando de recuar longas massas de tempo cobertas de pó, tem-se noção do avanço que o conhecimento sofreu ao longo da evolução do mundo: começou por se evoluir lentamente, milénio por milénio; mais tarde, o Homem descobre aluz na sombra numa questão de centenas de anos; e, para os mais atentos, desde há pouco mais de um século, o avanço salta de década em década, dando o conhecimento passos de gigante. Existem testemunhos disso, e todos os dias quando chegam a casa do trabalho os cumprimentamos.
E a sociedade cai em modas. A moda é conquistar e embriagam-se os homens, a quem se dá a espada, de ódio e testoesterona. A moda é descobrir e instrui-se um povo até então levemente ignorante para a Epopeia. A moda é revolução, e não se aceitam palavras que não as de ordem – “Liberté, Igualité, Fraternité!”. A moda é ter olhos claros e cabelo louro, para uma raça pura, mesmo que cientificamente impossivel, e condenam-se massas humanas como se esborracha uma barata com a sola do sapato. A moda é poder, e invadem-se povos com a brilhante desculpa de ser um auxílio. E a sociedade cai em extremos, extremos estes que dificilmente se alteram, dadas as variantes que a sociedade tem de satisfazer.
Mas nem tudo é mau. Ainda existe quem, neste mundo da sociedade, seja original e tenha a capacidade de sobreviver. E são estes tão loucos como os que desviam as sociedades para o lado errado, e no entanto têm a capacidade que falta às brilhantes mentes anteriores: são lúcidos, mesmo sonhando com a mudança, tornando-a possível. Porque necessária já o é.
Falando de algo que nos toca, agora mais do que nunca, que é feito da sociedade se está a gerar, da nossa geração ainda verde que será a sociedade futura? Na minha opinião, está envenenada: a formatação de saber que nos é imposta torna-nos seres incapazes de pensar, adquirindo saberes como dogmas e sem capacidade de os relacionar sem fontes de direcção, muitas vezes; estamos profundamente enraizados em ideologias perdidas e em modas, já não produzindo nada de novo, mas apenas, sim, dizendo sem qualquer sabor ou noção as palavras que outros disseram com fulgor; sabendo que somos números, tentamos, ou temos de ser o maior para ser alguém, já pouco nos importando em ser gente, já pouco nos lembrando de ter valores próprios, e quem somos cai na vulgaridade de ser o que ostentamos: marcas em série e ideias compradas; as revoluções não passam do convívio de botequins em praça pública: gritamos as palavras que alguém publicou e nos pareceram fortes e chamativas, sem saber sequer ao que vão dar, enquanto agarramos uma cerveja.
Terminando com o meu ponto de vista, é tempo de se fazerem mudanças, mas as mudanças não acontecem sozinhas, nem sem vontade de muitos. Nós, a geração que está a ver tudo acontecer tão rapidamente, por caminhos tão sinuosos, e ouvimos os relatos daqueles que viram imagens semelhantes, e têm palavras de esperança a dar, deveriamos começar um novo rumo, alcançar novos valores que não apenas aqueles que chamam a atenção, mas aqueles que são os pequenos detalhes das acções frutíferas e úteis, moderar o conhecimento para o que é realmente importante e não para desperdícios intitulados guerra, e, acima de tudo, aprender não a ditar saber, mas a construir o saber de gerência e vivência em sociedade, livres, pensantes e capazes de organizar as nossas ideias, sendo cooperantes com o próximo, aceitando ideias e construindo, não como uma utopia, mas sim como uma realidade, a aldeia global, fazendo das diferenças um ponto de convergância saudável.
Devemos ter a noção do nosso lugar na sociedade, não só local, como mundial, e cooperar com acções de união, evolução e altruísmo, medindo-as com intenção não só individual, mas transcendente a isso, não perdendo a nossa individualidade nem esmagando outras opiniões, focando uma evolução geral e positiva – formando um mundo universalmente adaptado a todos e a cada um, ou pelo menos, próximo disso."