Ela sorri com os olhos quando chora com as palavras; dança ao vento enquanto a chuva se lhe enrola no cabelo; baralha as folhas de Outono enquanto passeia sobre o verde; ilude a areia enquanto desliza os calcanhares nas ondas; é leve brisa de cabeça em turbilhão. E que seria dela se não soubesse que não sabe quem é, mas sabendo o que sabe comparando-se com o que a rodeia? Que seria dela sem a confusão em que se consome? Quem seria se não fosse o rugir do vento dentro da mais pacata casa...
E feliz na sua angústia, passeia pensativa pela melancolia da breve vida, sem saber, contudo, a medida do finito. Que finalidade é a da caracterização do ser mutável? Para quê dizer que somos velhos ou novos, se de tanta relatividade isso se faz... Passa a vida a escutar o quão individual é, mas, no fundo, só as comparações ouve. Será defeito ou feitio do ser? Ser assim tão perdidamente apática ao envolvente...
E pelos rochedos pica os pés em sangue e sente o fofo do algodão... E pelo caminho tropeça e continua ,como se esforço não fizesse... A finalidade não é o fim do caminho. O destino é a distância.
Sem saber onde vai, sabe o caminho que percorre. Porque sem saber o que é a água, as nuvens a soltam sobre a terra. E a tempestade começa, surda. Somente a luz se espalha no horizonte, como se o resto do ambiente fosse tão imutável que não acordasse com ela. A raiva muda sofre da dor que envenena.
Quando chegar ao fim do caminho, descobre que começa outro, onde os seus cabelos voltam a esvoaçar livres ao vento, em ondas mais perfeitas que marés, com um brilho, mais límpido que o da água, nos olhos, e um gesto, mais nobre que o mais velho mareante, nos lábios. Os seus pés, pensativos da derrota e nostálgicos da vitória, anunciam movimento. E mover-se-ão, até que o chão não se deixe tocar mais por eles.