Há alturas em que cansa ser, cansa ter sido e cansa querer ser um futuro...
Há alturas em que nada pára, mas a nossa mente ou o nosso coração parados ficam, com olhos baixos que, cansados, não querem ver o redor indecifrável e mesquinho, tão perturbadoramente indistinto de manchas de cor, quase só cinzentas...
Novamente a cor sumiu-se. De novo, o Mundo é feito de preto e branco, com várias texturas sem piada de percepcionar.
Os aromas sentem-se, mas não se aliam a nada significante para a minha alma.
E o futuro tornou-se um corredor vazio e fundo, de paredes frias e sem quadros que distraiam a visão do negro desconhecido...
Já não sei quem sou, já não tenho certeza do que quero ser. A única certeza é um passado que quero apagado. Não era mais que um impulso para um futuro melhor, para seguir um sonho perdido de infância que sonhava uma vida plena com olhos molhados e abertos de curiosidade.
Talvez me tenha enganado, e talvez esse não seja o melhor caminho a seguir para mim.
A cada passo que dou, tudo me leva a esse sonho. Mas a realidade, a que não vem só de "sinais" e de pés flutuantes pelo tempo, essa por vezes desvia-me. Por tantas vezes...
Será o sonho só mais uma prova de que o Homem é incapaz? Ou é o sonho a metáfora da superação?
Há momentos em que as palavras falam por outras palavras... Muitas vezes nem sabendo o que dizem o que querem dizer... Oxalá estas assim fossem... Num Mundo onde já nada significa o que é transmitido, isso passaria despercebido.
Mesmo já pouco sonhando acordada, o sonho persegue aqueles que quer. Porque outrora o quiseram, porque no fundo nunca o deixaram ou deixarão. É um extremo imperceptível que se escorre nas veias do ser, até que esse rio seque... E os extremos deixam marcas vísiveis ao observador mais atento...
E, assim, também a mim o sonho persegue, pedindo vontade e alento... Mas como, se a esperança fica, mas a vontade se esgota? E milagres? Esses nem em Cristo se fizeram sem que o Pai lhe desse o poder.
Há alturas em que a voz falta, os olhos secam e fecham, os ouvidos estalam em zunidos e o corpo desfalece em quatro tempos, soltando um suspiro pela vontade... As teclas desse piano desafinado já não soam como que percorridas por dedos inocentes e ingénuos, descobrindo as notas mágicas que tocam a alma em ânsia de som... Não querendo sentir de novo o pensamento e murmurar os "se"s que o levam a levantar de novo. Por vezes...
Farta de "se"s está a alma que luta.
Já falta pouco, mas quem sabe se é o descanço da conquista que está guardado para mim...