"Quem me dera não ter olhos nem cabeça nem pescoço
e nunca me pudesse deitar e tudo me impedisse de olhar o céu
quem me dera arder e ser cinzas espalhadas
num qualquer ganges perto de casa
sei que olhando o céu não posso agarrar uma estrela
mas poeira que fosse eu próprio me poderia fazer numa
moldando com as minhas mãos cansadas um barro muito limpo e verde
e reluzir ao universo inteiro gritando a toda hora
mas tudo isto não tem sentido
tudo isto é ridículo
tudo isto é fumo no ar ou a efabulação triste
de um rio junto às casas onde um dia sentimos
um no outro a pele doce do fim"
Frederico Mira George