17/04/2011

Até o gelo queima

Há dias em que faltam as palavras, mesmo sabendo que os nossos lábios se movem para algo dizer. Sem emitir som... A alma deixa de ser o comandante do corpo, e ainda assim ele move-se, sabe-se lá com que destino.


Há dias em que faz falta sentir de novo a ânsia do futuro, o contentamento do passado e a graça do presente.

A vida é muito semelhante à morte: ambas têm um passado que as precede mas que, por vezes, se esquece; ambas são um momento; nos dois momentos, o futuro é uma conjura apenas. Não se sabe o que há para lá do presente, na vida, nem para lá do momento, na morte. E, ainda assim, achamos que só a morte desconhecemos e que controlamos a vida. A morte, vista assim, é aquilo que menos desconhecemos, apenas o que mais tememos.


Existem momentos em que o tempo pára, e tudo fica mais lento aos nossos olhos. Sentimo-nos os observadores da matéria e de todos os promenores: a mulher conservadora de aparência que desenhou um sorriso de desprezo pelo homem que a observa (ele não lhe é suficiente); o homem que observa a mulher com expressão de clube campeão; a velha viúva, dois andares acima, a afofar o pêlo do seu gato, agustiada por já não ser desejada assim; a criança alegre que sobe as escadas correndo e passa pela mulher, fazendo a sua saia esvoaçar com agitação; uma voz que ri, alheia a toda a situação; a gaivota que voa de cabeça erguida a norte, ao mar, ao longe no céu; o carro que passa depressa, cortando o ar por detrás de nós; o cão que ladra ao longe; as folhas que se movem levemente nos arbustos; e o gato preto que nos observa, do cimo das escadas, com os seus grandes olhos cor de água, o único que parece comportar-se como pessoa, o único que parece pensar e transmitir-nos algo.

Ilusão.

Só nós é que não nos mexemos.

E quando temos a sensação de que despertamos, é como se o tempo parasse, mas fosse mais rápido.


O simples facto de agir pode ser um crime dúbio: há momentos em que fariamos melhor não mexer nem o ar que respiramos; há outros em que seríamos heróis ao provocar um tornado.

E quando são esses momentos?

Quem sabe... O mundo é um só, e as pessoas mundos infinitos...


Com o stress de hoje em dia, nem é necessario um laboratório para se aplicar E=m^2c. Quem somos nós para ainda falar em ciência se nem esta respeitamos...

Quem somos nós para falar dessa observação da natureza se destruimos aquilo de que somos parte?...

Quem seríamos nós se a ilusão fosse realidade? Melhor, se a realidade deixasse de ser ilusão...


Um clique e um flash, e a imagem já mudou...

Um abrir e fechar de olhos, e já não somos quem fomos, mas não sabemos o próximo cenário. Aliás, quem fomos é uma bela questão. Só sabemos que dificilmente o voltaremos a ser, mesmo que repitam que continuamos os mesmos...


Como a diferença é enganadora... Como a verdade mente e as imagens não são só cor...

Até o gelo queima.


Existem momentos em que as pessoas são as certas, só estão a mais onde se encontram... O local é o mais errado, o tempo o menos dedicado... E assim este pára... Para ser reposto.


Mas todos os outros se movem, nem que ao som de um suspiro, nem que pela obrigação ou pelo dever, nem que sem rumo...


Parece que todo o trilho começa algures...