Dou por mim a passear-me entre paredes frias que são roçadas por anos de indiferença... Paredes construídas por mãos mal pagas e com pressa de capitalismo e "evolução"...
Dou por mim a olhar para um céu fechado entre quatro varandas arruínadas, pendentes sobre a minha cabeça... Vejo os olhos e sinto a primeira gota de diferença cair dessa janela cinzenta.
As escadas que vejo à minha frente, gastas da passagem dos pés apressados dos mais novos e do andar pensativo e arrastado dos mais velhos... Todos cansados da velocidade a que vivem, todos a desejarem mudá-la...
As ruas são longas e largas, mas os pedaços de lata que as emolduram fazem-nas parecer pequenas... As prisões do subterrâneo e os botões chapados de esgoto fazem-nas cheirar mal, mas não é daí que vem o pior cheiro, desta coisa a que chamam cidade...
Quando não gosto de olhar para dentro de mim e ver quem sou, gosto de me distrair a ver o que fica para fora de mim... Paro.
À minha frente não vejo mais que prédios a recortarem o horizonte, que já nem se vê... Amontoam-se como se não houvesse mais espaço... (E chamam a isto civilização... Gregos e Romanos, donos dessas grandes, nos túmulos se voltem...) Pintados de várias cores, de várias formas... Altos, baixos, compridos ou magros, estão imóveis, de estendais vazios, janelas negras... Sem o mais leve sinal de vida humana ou outra qualquer... Sente-se a frieza que emanam... O vazio que são...
E reparo em outra coisa... Apesar de escondidas e, por vezes, quase invisíveis, umas árvores perdidas nos jardinzinhos que se fizeram para dar graça à coisa, movimentam-se ao passar do vento, tão suavemente que parecem dançar com ele... Têm cor, e o som que fazem encanta... Quase se iguala ao roçar de duas mãos... Sente-se vida.
Até o céu cinzento carregado, prestes a chorar, tem movimento... As camadas flutuam umas sobre as outras; parece uma maré de nuvens.
Uma gaivota sobrevoa sem sentido este horizonte... Até o céu parece mais vivo que a terra...
Até me esqueci que aquele burburinho de fundo, o mesmo de sempre, ali estava... Apaguei dos sentidos o barulho de todas essas máquinas que friamente se guiam ao esforço e se conduzem para rotas e trabalhos tão rotineiros já...
Ao menos o vento passa sempre, mas nunca da mesma forma.
E chamam a isto, friezas e vazios, intolerância e indiferença, "cidade", ponto de civilização...
A ver a vida passar, puxada por burro velho e cansado, sem sentido certo, vagamente perdida entre paisagens recortadas pela mão humana, mais vale não saber. Mais vale não seguir essa educação comprada, feita à margem do que alguém disse, num mundo de biliões de pessoas. Mais vale, ainda que sabendo-o, não o levar a sério.
Porque se civilização é deixar a indiferença fria guiar a mão quente do Homem, o Homem não é mais do que a máquina fria que constrói, ser orgulhoso da sua destruição.