Quando os olhos te ficam húmidos, primeiro tem em conta de para onde estás a olhar: se para algo bom ou algo mau.
Se não for para nada, em que pensas? Algo bom ou algo mau.
E se nada disto for, se for pelo que sentes? Ou é por algo bom ou algo mau.
Tudo tem duas opções, e cabe-te a ti escolheres a que queres. Ou não.
Mas mesmo que não tenhas oportunidade de escolher, podes contornar essa decisão não imposta por ti, fazendo outro caminho, algures, por onde achares que está o que te preenche.
E se for a morte essa decisão? Magoa, sofres, choras, lembras, sentes falta, mói, deprimes, assumes, culpas-te, perguntas porquê, tentas arranjas explicação...
Não vai voltar atrás.
As coisas que nos preenchem, directa ou indirectamente são feitas por ou são as próprias pessoas vivas.
Tudo o que aprendemos com quem nos deixou cá ficar, foi enquanto respiravam, enquanto lutaram e estiveram vivas. Depois de serem apenas um cadáver do qual a alma se libertou, o que nos dão são as memórias que outrora nos deram, e muitas vezes só aí aprendemos as várias lições de vida que nos deram.
Por isso mesmo, se chorares, chora pelo bom: pelas saudades marcadas de memórias que ficarão, por alguém que nunca te deixou. Não pela perda.
No fundo, nada perdeste. A sua presença continuará a existir se assim quiseres.
O corpo não passa de uma tentativa de representação da alma. Associamos um ao outro, mas a alma é a parte que, sem contacto directo, mais marca.
O corpo apodrece sem retorno, porque já nada tem que lhe dê vida, o que não o permite apodrecer. Adivinha o que é.
E ficará sempre, das muitas marcas que me deixaram, esta que te deixo a ti.